quinta-feira, 19 de junho de 2008

Reabilitação ritmada

A prática da agricultura, a elaboração de artigos artesanais ou as aulas de Educação Física são áreas tão distintas como exploradas no Centro Psiquiátrico de Arnes. Aqui a reabilitação é feita com ritmo.


Por Diana Andrade


São 3 da tarde. A Sala do Papel, no Pavilhão das Actividades, está toda decorada com trabalhos artesanais. A música vinda de um pequeno rádio torna o ambiente calmo e acolhedor. Cátia Curado, psicóloga, sentada em redor de uma mesa, elabora convites de casamento com a ajuda de oito homens que recortam moldes. À primeira vista ninguém diria que são apenas oito dos cerca de 150 utentes que o Centro Psiquiátrico de Recuperação de Arnes (CPRArnes) alberga.



Nas salas ao lado vêem-se garrafões encestados, caixas montadas, convites de casamento, ementas, … uma pluralidade de trabalhos manuais que conta com lugar reservado em várias feiras de artesanato. É na confecção destes artigos, encomendados por entidades do exterior em grandes quantias, que os doentes do CPRArnes ocupam algum do seu tempo.





Dr. António Canhão (Psiquiatra e Responsável Clínico do Centro)


Ao lado do Pavilhão das Actividades avista-se a Carpintaria. Entre madeiras e serrotes, João Basílio, carpinteiro credenciado, auxilia um utente no acabamento de um quadro de colmeias que se será colocado junto das outras dezenas já confeccionadas.
Ainda no ramo das actividades existe a residencial que complementa a vertente da autonomia pessoal.







Dr.António Canhão (Psiquiatra Responsável Clínico do Centro)



No percurso que separa a residência dos restantes pavilhões respira-se o ar puro daquele local. Há utentes a cuidar do jardim. Além da paisagem verde, do pomar e das estufas, existe o campo de futebol onde os utentes têm aulas de Educação Física duas vezes por semana.
O relógio de Fátima Monteiro, auxiliar, marca 4 da tarde. Cabe a esta profissional supervisionar as tarefas dos utentes, assim como a higiene pessoal ou a toma da medicação. O dia de labuta já terminou para Manuel (nome fictício), que regressa à residência e trata da sua higiene pessoal. Um cheiro agradável caracteriza a sala do rés-do-chão, destinado ao centro de dia, onde Miguel (nome fictício) espera a carrinha que o conduzirá até à estação de comboio, para regressar a casa. É um dos utentes externos que frequentam o centro das 9horas às 16.20.
Aqui, além das actividades diárias, há tempo para o convívio e para o lazer.







Enquanto Fátima Monteiro efectua algumas tarefas, é surpreendida por um utente que lhe dedica uma canção, ritmada com palmas. O ambiente em Arnes é animado. O fundamental aqui é acreditar na reabilitação. Mantendo esta postura, as taxas de sucesso vão continuar elevadas.



segunda-feira, 9 de junho de 2008

"Como jornalistas devemos estar dispostos a assumir riscos. Faz parte da profissão"

ENTREVISTA
Isabel Nery


Isabel Nery, 37 anos, é jornalista e nutre um gosto especial por temas relacionados com mulheres e crianças. Nos contactos feitos para o trabalho acerca do tráfico de mulheres, publicado na revista VISÃO, em Março do ano passado, deparou-se com outra realidade: a prostituição infantil. Apercebeu-se que a história de algumas das mulheres que contactou começara muito cedo, quando eram ainda crianças e os turistas viram em si uma forma barata de divertimento.
Após muitos contactos viajou para o Brasil, e o seu trabalho resultou numa reportagem para a VISÃO/SIC, onde relata a pobreza social, financeira e emocional que conduz muitas crianças à prostituição.

O que é que a motivou a continuar um trabalho que era suposto ter ficado arrumado em finais de Março do ano passado?
O trabalho de Março ficou arrumado, mas, como muitas vezes acontece em jornalismo, um trabalho leva-nos a outro. Quando começamos um artigo ou reportagem temos de definir um ângulo. Mas para chegarmos onde queremos, é preciso investigar e falar com muitas pessoas. Nessa investigação surgem questões e temas que, embora interessantes, não podemos abordar naquele artigo. Além disso, desde que sou jornalista trabalho os problemas das mulheres e das crianças. Já há muito tempo que estava na minha cabeça o tema da exploração sexual infantil. O trabalho sobre tráfico de mulheres permitiu-me chegar a fontes que depois me ajudaram a fazer o caminho para o outro tema.

No início da sua reportagem refere: “Partilhei as lágrimas da menina violada pelo pai…”. Na abordagem de um tema delicado como este, como conciliou o “ser mulher” com o “ser repórter”?
Foi um trabalho muito duro emocionalmente. Mas acho que não tem tanto a ver com o facto de ser mulher, mas sim de ser muito sensível a tudo o que se relaciona com crianças, com grupos frágeis em geral. Choca-me especialmente que se explore a fraqueza (emocional, financeira, social). Respeitar as crianças implica assumir plenamente a ideia de que os mais fortes devem proteger os mais fracos. Uma sociedade que permite, aceita, abusos infantis ainda não interiorizou essa postura. Durante a reportagem pensei muitas vezes que o facto de ser mãe me tornava ainda mais vulnerável àquelas histórias, mas a verdade é que já fazia temas destes muito antes de ser mãe e eram igualmente sofridos. Embora seja importante termos cuidado com a “presença” do repórter no texto (não abusar dela), neste caso pareceu-me importante para transportar a carga emocional que a vida daquelas crianças tinha. Se não a transmitisse estaria a deitar fora parte da reportagem.

O que sentiu e o que pensou ao atravessar as ruas de Salvador sabendo que existiam “pistolas e metralhadoras” a seguirem os vossos passos?
O mais importante aqui é o profissionalismo com que se devem aceitar situações de risco. Nas duas favelas onde estive já tinham sido assassinados jornalistas. Não entrei em nenhum destes sítios sem o apoio e acompanhamento de moradores da favela. Isto é fundamental para não sermos vistos como uma ameaça. Não ter este tipo de cuidados nada tem a ver com coragem. É pura estupidez. Como jornalistas devemos estar dispostos a assumir riscos. Faz parte da profissão. É como perguntares a um médico se tem medo de usar agulhas com um doente de sida. A questão não se põe. É preciso fazer para o trabalho ficar bem feito, faz-se. Mas isso não significa que não se devam tomar precauções e calcular os riscos. No caso das favelas, temos de ter em conta que não estamos no nosso país, não estamos no nosso bairro. Somos estranhos e o que é estranho é geralmente entendido como hostil, sobretudo em locais que vivem em convulsão social permanente. Além da questão do risco, há a utilidade prática do trabalho. Entrar num bairro destes sem estar bem acompanhado significa que ninguém falará connosco e, nesse caso, o que fomos lá fazer? Se queres saber se tive medo, sim, tive algum. Mas apenas o suficiente para não ser estúpida. Não foi propriamente uma sensação agradável abrir o jornal enquanto tomava o pequeno-almoço e verificar que na favela onde estaria dali a meia-hora tinha sido assassinado um casal de forma brutal, dentro do seu quarto. Não só porque me recordou que ia para um local com perigo relativo, mas também porque isso queria dizer que os moradores iam estar hipersensíveis nesse dia.

No regresso a Portugal, o que se traz na “bagagem”?
Primeiro a sensação do dever quase cumprido (ainda faltava escrever para a Visão e montar a peça na SIC), no sentido em que sabia que tinha conseguido boas histórias e informação importante para dar ao leitor, para o sensibilizar para o tema. Em termos emocionais, ficou a alegria por ter conhecido mulheres lutadoras, fantásticas, como a Sílvia Boa-Morte ou a Maria Cunha, entre outras. E uma grande tristeza por saber que no século XXI ainda não está completamente assumida a necessidade de proteger as crianças.